Entre elogios à sua firmeza e críticas por “excesso de poder”, o ministro do STF tornou-se símbolo de uma era em que o Judiciário assumiu o centro do palco político.
Por anos, o Supremo Tribunal Federal era visto como uma instituição discreta, de linguagem técnica e pouco apelo popular. Essa imagem mudou radicalmente com a ascensão de Alexandre de Moraes, hoje uma das figuras mais poderosas — e polarizadoras — do Brasil.
Ex-ministro da Justiça e professor de Direito Constitucional, Moraes passou a ocupar um papel central no embate entre o Judiciário e o bolsonarismo. Desde 2020, ele relata inquéritos sobre fake news, atos antidemocráticos, ataques às urnas eletrônicas e tentativas de golpe de Estado. As decisões que autorizam prisões, buscas, bloqueios de contas e suspensão de perfis nas redes sociais transformaram-no no “xerife da democracia” para uns e em “símbolo do ativismo judicial” para outros.
“Moraes foi o ministro que entendeu que o ataque às instituições exigia uma resposta firme”, afirma o cientista político Fernando Abrucio, da FGV. “Num momento em que o Congresso hesitou, o Supremo se moveu.”
Para seus apoiadores, a atuação do ministro foi essencial para preservar o processo eleitoral e conter ameaças golpistas. Já críticos apontam que suas decisões concentram poder demais e extrapolam os limites constitucionais de um juiz.
O jurista Ives Gandra da Silva Martins, professor emérito da Mackenzie, é um dos mais contundentes:
“O ministro Moraes age com a convicção de estar defendendo a democracia, mas o faz violando princípios básicos do devido processo legal. Ele acumula as funções de investigador, acusador e julgador — o que é incompatível com o Estado de Direito.”
Na mesma linha, o advogado constitucionalista Adib Abdouni argumenta que as ações do ministro “criam um precedente perigoso”, pois o STF passa a decidir temas que deveriam ser tratados pelo Ministério Público ou pela Polícia Federal, ferindo a separação entre os poderes.
Essas críticas, contudo, não são unânimes. A jurista Raquel Machado, professora da UFMG, vê em Moraes uma resposta institucional a um tempo excepcional:
“O ministro interpreta o papel do Supremo de forma expansiva, mas dentro da Constituição. Em situações de risco democrático, a omissão seria mais grave do que a ação.”
Essa disputa de interpretações revela um país em que a fronteira entre justiça e política se tornou difusa. Quando Moraes assume investigações de alto impacto — como as que envolvem Jair Bolsonaro, Filipe Martins e outros aliados —, inevitavelmente se torna personagem de uma narrativa nacional.
Hoje, nenhuma figura institucional desperta reações tão opostas. Para parte da sociedade, Moraes é a muralha que impediu retrocessos democráticos. Para outros, é o juiz que transformou a toga em instrumento de poder político.
Entre aplausos e vaias, Alexandre de Moraes segue no centro do palco — um protagonista que personifica tanto a força quanto as contradições do Judiciário brasileiro contemporâneo.