Pesquisas internacionais indicam que a tradicional “curva da felicidade” mudou — e os mais jovens hoje relatam níveis de infelicidade mais elevados do que gerações anteriores
Por décadas, psicólogos e economistas assumiram que a vida emocional humana seguia um padrão em forma de U: com altos níveis de bem-estar na juventude, uma queda na meia-idade (a chamada “crise dos 40”) e depois um novo aumento na velhice. Essa visão popular justificava filmes, livros e conversas sobre o “meio da vida” como o momento de maior crise psicológica.
No entanto, estudos recentes desafiam essa ideia e sugerem que a Geração Z enfrenta um tipo de crise emocional muito mais precoce e intensa — uma “crise dos 20 anos”, em que jovens adultos relatam altos níveis de desespero, ansiedade e infelicidade.
A mudança na curva da felicidade
Uma pesquisa publicada na revista PLOS ONE, com dados de mais de 2 milhões de indivíduos em 44 países, constatou que a tradicional “crise da meia-idade” simplesmente desapareceu em muitas populações. Em vez disso, a maior queda no bem-estar agora ocorre entre adolescentes e jovens adultos, principalmente na faixa dos 18 aos 24 anos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, os níveis de “desespero” — definido como um mês inteiro de saúde mental debilitada — aumentaram de 2,9% entre jovens menores de 25 anos em 1993 para cerca de 8% em 2023. Isso supera os níveis historicamente associados à meia-idade e reflete uma piora significativa na saúde mental dos mais jovens.
Mulheres jovens como grupo mais afetado
Os dados também mostram uma disparidade de gênero preocupante: mulheres com menos de 30 anos são frequentemente o grupo com os mais altos índices de infelicidade e sofrimento emocional, especialmente em contextos como desemprego, insegurança financeira e pressões sociais intensas.
Por que essa mudança está ocorrendo?
Especialistas apontam uma série de fatores que ajudam a explicar essa transformação na experiência emocional dos jovens, incluindo:
• Mercado de trabalho instável e expectativas frustradas: Jovens enfrentam dificuldades maiores para encontrar empregos estáveis, alcançar segurança financeira e comprar moradias.
• Pressão social e comparações online: A onipresença das redes sociais intensifica comparações sociais e sentimentos de inadequação, contribuindo para ansiedade e baixa autoestima.
• Mudanças culturais e ausência de marcos tradicionais: Eventos antes considerados sinais de estabilidade adulta — como casamento ou casa própria — agora são adiados ou vistos como menos acessíveis, gerando incerteza e frustração existencial.
Alguns especialistas usam o termo “crise do quarto de vida” para descrever esse período de dúvida profunda que muitos jovens enfrentam ao transitar da educação para o trabalho e da dependência financeira para a independência real — um conceito já descrito em psicologia como semelhante a uma versão antecipada da crise da meia-idade.
Impactos sociais e de saúde pública
Esse deslocamento na curva do bem-estar não é apenas um fenômeno cultural: ele tem implicações profundas para a saúde pública, políticas de juventude e sistemas de apoio social. À medida que os jovens relatam maiores níveis de depressão, ansiedade e desespero do que os idosos, cresce a demanda por serviços de saúde mental adaptados às necessidades dessa faixa etária.
Em resumo: o que antes era entendido popularmente como “crise dos 40” agora parece estar sendo substituído por uma crise emocional precoce entre os jovens adultos da Geração Z, impulsionada por desafios econômicos, sociais e psicológicos únicos do século XXI — com destaque para o sofrimento relatado por mulheres jovens.