BRASÍLIA/WASHINGTON – O embate jurídico e diplomático entre o Judiciário brasileiro e autoridades dos Estados Unidos atingiu um novo patamar de tensão. Um parecer detalhado, divulgado pelo Comitê de Assuntos Judiciários da Câmara dos Representantes dos EUA, acusa formalmente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de impor uma "censura global" ao determinar a remoção de conteúdos e perfis em redes sociais com alcance internacional.
O documento, que serve de base para discussões sobre a liberdade de expressão nas Américas, gerou uma reação imediata e contundente do ministro Edson Fachin, que classificou as conclusões estrangeiras como baseadas em premissas equivocadas.
A Tese da "Extraterritorialidade" da Censura
O ponto central do relatório americano reside na abrangência das ordens judiciais emitidas por Moraes no âmbito dos inquéritos sobre milícias digitais e atos antidemocráticos. Segundo o parecer, as determinações do STF não se limitaram ao território brasileiro, exigindo que plataformas como X (antigo Twitter), Meta e Rumble derrubassem contas em nível mundial.
Os congressistas americanos argumentam que:
- Violação de Soberania: Ao exigir que uma empresa americana censure um usuário fora do Brasil, o STF estaria extrapolando sua jurisdição.
- Punições Desproporcionais: O relatório cita as multas diárias milionárias impostas às Big Techs como uma forma de "coação econômica" para forçar o cumprimento de decisões que ferem a Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
- Opacidade: O documento critica o caráter sigiloso de muitas dessas ordens, afirmando que as empresas são impedidas de informar aos usuários o motivo exato da suspensão de suas contas.
Fachin Reage: "Distorções Narrativas"
O ministro Edson Fachin, atual vice-presidente do STF, saiu em defesa da Corte e do colega Alexandre de Moraes. Em manifestação oficial, Fachin afirmou que o relatório americano contém "distorções" e ignora o contexto de ataques híbridos às instituições democráticas brasileiras.
Para Fachin, a liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não é absoluta quando utilizada como escudo para a prática de crimes ou para o financiamento de atos que visam a abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O ministro ressaltou que o Brasil possui soberania jurídica e que as decisões do STF seguem o devido processo legal estabelecido pela Constituição de 1988.
O Impacto nas Big Techs
O parecer dos EUA também dá voz às reclamações de plataformas digitais que se veem no "fogo cruzado" entre a legislação brasileira e os princípios de liberdade de expressão americanos. O documento aponta que a pressão do Judiciário brasileiro cria um precedente perigoso, onde outros países poderiam exigir a remoção global de conteúdos baseados em critérios políticos locais.
Comparativo de Visões Jurídicas
| Ponto de Conflito | Visão do Relatório EUA | Defesa do STF (Brasil) |
| Alcance das Ordens | "Censura Global" e extraterritorial. | Proteção da democracia local em redes globais. |
| Natureza das Contas | Exercício de liberdade de expressão. | Meios de propagação de desinformação criminosa. |
| Transparência | Processos sigilosos e antidemocráticos. | Sigilo necessário para preservação das investigações. |
Implicações Diplomáticas
O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, tem tentado tratar o caso como uma questão estritamente jurídica, mas o relatório da Câmara americana aumenta a pressão política sobre a administração Biden — e potencialmente sobre futuras gestões em Washington — para que adotem medidas de retaliação ou sanções contra autoridades brasileiras.
Enquanto o STF reforça que o combate às fake news é essencial para a sobrevivência das eleições, o parecer dos EUA conclui que o remédio aplicado pelo Brasil "é mais perigoso que a doença", sugerindo que o país estaria caminhando para um modelo de controle de internet similar ao de regimes autoritários. O impasse promete seguir como o principal gargalo nas relações institucionais entre as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental.