TEERÃ — O número de mortos durante os protestos antigovernamentais no Irã subiu para mais de 500 pessoas, segundo balanço atualizado divulgado neste domingo (12) pela Iran Human Rights (IHR), organização de direitos humanos sediada em Oslo. As manifestações, que já duram mais de duas semanas, se tornaram as mais violentas desde a Revolução Islâmica de 1979, com relatos de execuções sumárias, prisões em massa e uso de munição real por forças de segurança.
A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e as forças Basij intensificaram as operações nas principais cidades, incluindo Teerã, Isfahan, Shiraz, Tabriz e Mashhad, após uma onda de protestos liderada por estudantes e trabalhadores. Testemunhas relataram tiroteios em bairros residenciais e prisões de manifestantes feridos dentro de hospitais.
“O número de vítimas cresce a cada hora. As forças de segurança estão atirando contra multidões desarmadas, inclusive mulheres e adolescentes. A situação é crítica e pode se transformar em um massacre nacional”, afirmou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHR.
Os protestos começaram após a morte de duas jovens universitárias sob custódia policial, acusadas de “ofensas à moral islâmica”, mas rapidamente se transformaram em um movimento popular pela queda do regime do aiatolá Ali Khamenei. Em resposta, o governo bloqueou a internet, fechou universidades e prendeu centenas de jornalistas e ativistas.
De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), 67 profissionais da imprensa estão detidos, enquanto a Anistia Internacional denunciou torturas e execuções secretas de presos políticos.
O governo iraniano voltou a culpar os Estados Unidos e Israel por “instigar o caos e financiar grupos extremistas” e prometeu retaliação em caso de interferência internacional.
“Estamos diante de uma guerra híbrida contra o Irã. Não toleraremos conspirações externas travestidas de manifestações populares”, declarou o porta-voz da chancelaria iraniana, Nasser Kanaani, em pronunciamento transmitido pela TV estatal.
A ONU, os Estados Unidos, a União Europeia e diversas organizações de direitos humanos condenaram a repressão, pedindo investigação internacional independente e sanções contra autoridades envolvidas nas mortes.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou a situação como “intolerável e alarmante” e exortou o Irã a “cessar imediatamente o uso de força letal contra civis”. Já o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em rede social que o regime iraniano “está em colapso diante da coragem de seu próprio povo”.
Fontes diplomáticas em Genebra afirmam que mais de 2.000 pessoas permanecem desaparecidas, e centenas de corpos foram enterrados sem identificação, prática denunciada por familiares das vítimas.
Especialistas consideram que os protestos atuais representam o maior desafio ao regime teocrático em mais de quatro décadas, com o colapso econômico, inflação acima de 40% e desemprego crescente alimentando a revolta popular.
“O medo mudou de lado. Pela primeira vez desde 1979, o regime luta não contra inimigos externos, mas contra a exaustão e a indignação de sua própria população”, disse Tara Sepehri Far, pesquisadora da Human Rights Watch.
Enquanto a repressão continua, o Irã vive um estado de tensão nacional, com toques de recolher em dez províncias e presença militar nas ruas. A comunidade internacional acompanha com apreensão o desenrolar dos acontecimentos, que já configuram uma tragédia humanitária de grandes proporções.