Número de mortos em protestos no Irã sobe para 203; polícia admite intensificação de confrontos com manifestantes

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Número de mortos em protestos no Irã sobe para 203; polícia admite intensificação de confrontos com manifestantes

TEERÃ — O número de mortos nos protestos em curso no Irã subiu para 203 pessoas, segundo balanço atualizado da organização Iran Human Rights (IHR), sediada em Oslo. As manifestações, que já se estendem por mais de dez dias, têm sido marcadas por forte repressão policial e confrontos violentos entre forças de segurança e manifestantes contrários ao regime do aiatolá Ali Khamenei.

De acordo com a agência estatal IRNA, a própria polícia iraniana reconheceu nesta sexta-feira (10) que o “nível de enfrentamento com os manifestantes se intensificou” nos últimos dias, especialmente em cidades como Teerã, Isfahan, Shiraz e Tabriz. Testemunhas relatam o uso de munição real, gás lacrimogêneo e prisões em massa, enquanto vídeos compartilhados nas redes sociais mostram militares atirando contra multidões e helicópteros sobrevoando bairros residenciais.

“O país vive uma escalada sem precedentes desde 2019. Há relatos de civis baleados pelas costas e detenções arbitrárias em escolas e hospitais”, afirmou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHR, em comunicado oficial.

Os protestos começaram após a prisão e morte de duas mulheres universitárias, acusadas de “ofensas à moral islâmica”, mas rapidamente ganharam força com reivindicações políticas mais amplas, como o fim da repressão religiosa, a queda do regime e eleições livres.

O governo iraniano, por sua vez, nega abusos e acusa Estados Unidos e Israel de “semear o caos e financiar movimentos subversivos” dentro do país. O ministro das Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, afirmou em rede nacional que o Irã “não tolerará interferência estrangeira” e prometeu “responder de forma firme e proporcional a qualquer tentativa de desestabilização”.

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reforçou o aparato de segurança nas principais cidades e iniciou prisões preventivas de opositores e jornalistas. Segundo a ONG Committee to Protect Journalists (CPJ), pelo menos 45 profissionais da imprensa foram detidos desde o início dos protestos.

“As autoridades tentam silenciar a cobertura internacional, mas as imagens de violência já circulam amplamente. O Irã está diante de uma convulsão social comparável à de 2009”, avaliou Tara Sepehri Far, pesquisadora da Human Rights Watch.

A comunidade internacional reagiu com preocupação. A União Europeia, o Departamento de Estado dos EUA e a Anistia Internacional pediram o fim imediato da repressão e a libertação dos presos políticos. Em comunicado, o porta-voz da ONU para Direitos Humanos, Jeremy Laurence, classificou as ações do regime como “violação grave das convenções internacionais” e alertou que o Irã pode enfrentar novas sanções diplomáticas.

Apesar da censura e do bloqueio parcial da internet, os protestos continuam se expandindo para o interior do país. Estudantes e trabalhadores do setor público aderiram às manifestações, e há registros de greves e atos coordenados em 25 das 31 províncias iranianas.

Segundo observadores, o movimento atual representa um dos maiores desafios ao regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979, e pode marcar o início de uma nova fase de instabilidade política e social no Irã.

“O medo parece ter mudado de lado. Pela primeira vez em décadas, o governo teme seu próprio povo”, resumiu Amiry-Moghaddam, da Iran Human Rights.