A postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação à Venezuela é um dos pontos mais controversos da diplomacia brasileira contemporânea. Desde o retorno do petista ao poder, em 2023, sua política de reaproximação com o regime de Nicolás Maduro tem provocado críticas internas e desconforto em parte da comunidade internacional, que vê no governo venezuelano um regime autoritário responsável por violações de direitos humanos e fraudes eleitorais.
A origem da aproximação
Lula retomou as relações diplomáticas com Caracas logo nos primeiros meses de seu mandato, revertendo o isolamento imposto durante o governo de Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto e o Itamaraty justificaram o gesto como uma tentativa de restaurar o diálogo regional e reinserir a Venezuela nas instâncias multilaterais da América do Sul, como o Mercosul e a Unasul, das quais havia sido afastada.
Em maio de 2023, Lula recebeu Maduro em Brasília com honras de chefe de Estado, gesto que provocou reações negativas em setores do Congresso e da imprensa. Na ocasião, o presidente brasileiro declarou que a narrativa de que a Venezuela seria uma ditadura era “construída” por adversários e pela imprensa ocidental — fala que gerou forte repercussão e críticas de líderes estrangeiros, como Gabriel Boric, do Chile, e Luis Lacalle Pou, do Uruguai.
A lógica do “pragmatismo diplomático”
Para assessores do Itamaraty, a política externa de Lula segue uma linha pragmática, voltada a recuperar a influência do Brasil no eixo sul-americano e no Sul Global. O governo sustenta que isolar Caracas seria contraproducente, pois enfraqueceria canais de negociação e deixaria o país mais dependente de China, Rússia e Irã — aliados com interesses estratégicos no petróleo e na infraestrutura venezuelana.
Esse pragmatismo se apoia também em uma tradição diplomática brasileira de não intervenção nos assuntos internos de outros países. Lula tem repetido que “cada nação deve resolver seus próprios problemas” e que sanções econômicas e pressões externas “agravam o sofrimento do povo venezuelano”.
As críticas internas e externas
Apesar dessa retórica de soberania, opositores e analistas independentes apontam que a posição de Lula ignora evidências claras de autoritarismo. Organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional denunciam prisões arbitrárias, censura e perseguição a opositores. As eleições legislativas e presidenciais sob Maduro foram rejeitadas por observadores internacionais por falta de transparência.
Nos bastidores diplomáticos, há desconforto também entre parceiros democráticos da América do Sul. Países como Chile, Uruguai e Colômbia vêm tentando mediar uma transição democrática gradual em Caracas, mas criticam a postura brasileira por “normalizar” o regime. Em Washington e Bruxelas, diplomatas veem o alinhamento de Lula a Maduro como um obstáculo à coordenação hemisférica em temas de direitos humanos e segurança.
O cálculo político interno
Para analistas brasileiros, a defesa de Lula à Venezuela também tem dimensão ideológica e política doméstica. Parte do eleitorado petista e da esquerda regional ainda vê o chavismo como símbolo de resistência anti-imperialista — um contraponto ao domínio econômico e político dos Estados Unidos na América Latina. Assim, ao defender Maduro, Lula também fala à sua base, que valoriza a autonomia da região e desconfia das leituras hegemônicas ocidentais sobre democracia e direitos humanos.
Por outro lado, essa postura reforça a crítica de que o presidente adota dois pesos e duas medidas: condena intervenções externas em países aliados, mas evita cobrar padrões democráticos mínimos de governos alinhados ideologicamente ao PT.
Entre a diplomacia e a imagem internacional
O resultado é um dilema: enquanto Lula tenta projetar o Brasil como mediador global e líder regional, sua condescendência com regimes autoritários — não apenas na Venezuela, mas também em Cuba e Nicarágua — dificulta a construção de uma imagem coerente de defensor da democracia.
Para observadores, a insistência em defender Caracas pode custar caro à diplomacia brasileira, comprometendo a credibilidade do país em fóruns internacionais de direitos humanos e em negociações com potências ocidentais. Ainda assim, o Planalto parece disposto a manter a aposta: dialogar com todos, mesmo com os regimes mais criticados, em nome do que Lula chama de “realismo político e respeito à autodeterminação dos povos”.