BRASÍLIA – O fantasma das bombas vazias voltou a assombrar o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios nesta semana. Representantes das principais distribuidoras e importadores de combustíveis emitiram um alerta crítico ao Governo Lula, apontando um risco real de desabastecimento de diesel e gasolina em diversas regiões do país. A crise, que combina fatores logísticos internos e instabilidade geopolítica, coloca pressão sobre a Petrobras e exige uma resposta rápida do Ministério de Minas e Energia.
Os Gargalos da Crise: Por que o Risco é Real?
O alerta do setor não é um fato isolado, mas o resultado de uma "tempestade perfeita" que vem se formando desde o início de março de 2026. Os distribuidores listam três motivos principais para a urgência:
- Bloqueio do Estreito de Ormuz: O conflito no Oriente Médio, com o fechamento da principal rota marítima de petróleo pelos EUA e Irã, interrompeu o fluxo regular de importações. O Brasil ainda depende de cerca de 25% de diesel importado para suprir a demanda interna.
- Defasagem de Preços da Petrobras: O setor reclama que a Petrobras, sob orientação do governo, tem mantido os preços nas refinarias abaixo da paridade internacional para segurar a inflação. Isso inviabiliza a importação por agentes privados, que não conseguem competir com o preço "subsidiado", deixando toda a responsabilidade de suprimento nas mãos da estatal.
- Logística Interna e Safra Agrícola: O aumento da demanda por diesel para o escoamento da safra de grãos, especialmente no Centro-Oeste e em Mato Grosso, sobrecarrega o sistema de transporte e armazenamento, que já opera no limite.
A Cobrança ao Governo Lula
As associações do setor pedem uma "ação coordenada e imediata". Entre as medidas sugeridas ao governo e à Petrobras estão:
- Ajuste na Política de Preços: Um realinhamento, mesmo que parcial, para permitir que importadores voltem a trazer combustível de outras origens (como o Golfo do México ou Índia) sem prejuízo.
- Uso de Reservas Estratégicas: A liberação de estoques reguladores para garantir que setores essenciais, como transporte público e agronegócio, não parem.
- Priorização Logística: Criação de corredores de abastecimento prioritário para regiões que apresentam estoques críticos, evitando o pânico nos postos de combustíveis.
O Dilema Político no Planalto
Para o presidente Lula, o alerta é um "check-mate" econômico. Se autorizar o aumento de preços para facilitar a importação, a inflação sobe e sua popularidade cai. Se mantiver os preços represados e o combustível acabar, o caos social e a paralisação de caminhoneiros podem gerar uma crise de governabilidade comparável à de 2018.
Conclusão: O Relógio Está Correndo
O setor de combustíveis deu o sinal de alerta: sem uma mudança na estratégia de preços ou uma garantia de suprimento pela Petrobras, o país pode enfrentar racionamento ou falta de produtos em até 15 dias em pontos isolados. Em Brasília, a ordem é de "monitoramento constante", mas para quem está na ponta da linha — o caminhoneiro e o produtor rural —, a preocupação já se transformou em busca por estocagem antecipada.