Moradores denunciam falta de concorrência e reclamam de valores idênticos aos da concorrência em quase 100% dos postos
VÁRZEA GRANDE, MT – Abastecer o veículo em Várzea Grande tornou-se um exercício de frustração para o bolso do cidadão nos últimos meses. A cidade, que compõe a região metropolitana de Cuiabá, vive um cenário de aparente "tabelamento informal" de preços. Motoristas relatam que, independentemente do bairro ou da bandeira, os valores nas bombas de gasolina, etanol e diesel são milimetricamente idênticos em quase a totalidade dos estabelecimentos, ferindo o princípio da livre concorrência.
O Epicentro das Reclamações: Jardim Aeroporto
Um dos alvos frequentes da indignação popular é o Posto Prime, estrategicamente localizado na Av. Presidente Artur Bernardes, 356, no Jardim Aeroporto. Por ser um ponto de grande fluxo, a unidade reflete o que os consumidores chamam de "efeito espelho".
- Coincidência ou Combinação? Consumidores que transitam pela região do Aeroporto Marechal Rondon apontam que o Posto Prime pratica os mesmos valores de unidades localizadas a quilômetros de distância, no Centro ou na FEB. "Não compensa mais procurar preço. Do Jardim Aeroporto até o Cristo Rei, o valor é o mesmo centavo. Parece que os donos de postos têm um grupo de WhatsApp para decidir o preço do dia", desabafa um motorista de aplicativo que preferiu não se identificar.
- Margem de Erro Inexistente: Em uma economia saudável, a variação de custos logísticos e operacionais deveria gerar diferenças de preço entre os postos. Em Várzea Grande, no entanto, a variação é de 0%, o que, para especialistas em direito do consumidor, é um forte indício de cartel.
Ações das Autoridades e o Cenário em 2026
A situação em Várzea Grande ocorre em um momento em que a Polícia Federal e o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) intensificaram investigações contra o que chamam de "Máfia dos Postos".
- Investigação de Cartel: Em março de 2026, o MP abriu um inquérito para apurar o aumento abusivo e a uniformidade de preços no estado. Mato Grosso fechou o mês de março com o 4º maior preço médio de combustível do Brasil, com a gasolina beirando os R$ 7,42.
- Fiscalização do Procon-VG: O Procon de Várzea Grande tem realizado vistorias periódicas para aferir a qualidade do combustível e a transparência nas bombas. Contudo, o órgão ressalta que o tabelamento de preços não é ilegal por si só, a menos que se comprove o acordo prévio entre os donos de postos para eliminar a concorrência.
- A Pressão do Diesel: A alta internacional do petróleo em 2026 tem servido de justificativa para os empresários, mas a PF investiga se postos estão subindo os preços sem que tenha havido reajuste nas refinarias ou distribuidoras, caracterizando lucro arbitrário.
Casos Semelhantes e Tratamentos Diferenciados
Enquanto Várzea Grande sofre com a uniformidade, outras cidades da região apresentam dinâmicas distintas:
1. O Rigor em Cuiabá (Passado Recente)
Em 2025, postos em Cuiabá foram interditados por operar sem alvará e por suspeita de fraude na quantidade de combustível entregue. O tratamento dado pela prefeitura da capital foi de interdição imediata, algo que os consumidores de Várzea Grande cobram que seja aplicado com o mesmo rigor na "Cidade Industrial".
2. O Contraste com o Interior
Cidades como Jaciara e Sinop apresentam variações de preço que chegam a R$ 0,40 por litro em comparação com a Baixada Cuiabana. Para o consumidor, esse "tratamento diferenciado" do mercado interiorano prova que a uniformidade em Várzea Grande não é uma questão de mercado, mas de combinação política e econômica.
O Que Dizem os Postos?
As associações de revendedores de combustíveis costumam alegar que a similaridade de preços ocorre pela proximidade dos fornecedores e pela alta carga tributária (ICMS fixo), o que nivelaria os custos por baixo. No entanto, a explicação não convence o cidadão de Várzea Grande, que vê seu custo de vida disparar enquanto a concorrência desaparece das avenidas.