O recorde que precisa ser entendido
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Brasil encerrou 2025 com 103,2 milhões de pessoas ocupadas, o maior número da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). A taxa oficial de desemprego caiu para 5,2%, o que representa 5,6 milhões de pessoas desocupadas — a menor taxa desde o início do levantamento.
À primeira vista, os números parecem indicar um cenário de pleno emprego e crescimento consistente. Contudo, uma análise mais cuidadosa mostra que esse otimismo pode ser enganoso.
Informalidade ainda domina o mercado
Dos 103,2 milhões de ocupados, 37,7% estão na informalidade, segundo o IBGE. Isso significa que mais de 39 milhões de brasileiros trabalham sem carteira assinada, sem previdência e sem direitos trabalhistas. São vendedores ambulantes, diaristas, motoristas de aplicativo e autônomos sem estabilidade.
A informalidade, embora contribua para o aumento estatístico da “ocupação”, não garante renda estável nem proteção social. O crescimento desse segmento indica um mercado que emprega, mas de forma precária. Em muitos casos, a renda mensal é insuficiente para sustentar as famílias — o que explica o aumento simultâneo no número de beneficiários de programas sociais.
Subocupação e dependência social distorcem a realidade
Outro dado importante é o da subocupação: cerca de 6,7 milhões de brasileiros trabalham menos horas do que gostariam ou do que o mercado oferece. Somam-se ainda 4 a 5 milhões de pessoas que recebem benefícios sociais como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas não participam ativamente do mercado de trabalho.
Embora o IBGE não contabilize automaticamente beneficiários como “ocupados”, parte dessa população aparece nas estatísticas como economicamente ativa, o que contribui para a percepção de um mercado mais saudável do que realmente é.
O desemprego “real”: mais alto do que o oficial
Somando os desempregados oficiais (5,6 milhões), os subocupados (6,7 milhões) e uma estimativa de 4,5 milhões de pessoas fora do mercado, mas sustentadas por transferências de renda, chega-se a 16,5 milhões de brasileiros sem ocupação plena.
Sobre uma força de trabalho de aproximadamente 108,8 milhões de pessoas, isso representa um desemprego real de 15,1% — três vezes maior que a taxa oficial.
Ou seja, apenas 84% da força de trabalho brasileira está efetivamente ocupada de forma produtiva e contínua.
Esse dado evidencia um cenário de fragilidade estrutural: o país pode estar com mais gente “ocupada”, mas com menos pessoas realmente trabalhando em condições de estabilidade e rendimento adequado.
O desafio da qualidade do emprego
Economistas ouvidos pelo Valor Econômico e pela CNN Brasil ressaltam que o principal desafio para 2026 não será apenas gerar vagas, mas melhorar a qualidade do trabalho existente. O Brasil ainda tem uma das maiores taxas de informalidade entre as economias emergentes e uma das menores proporções de trabalhadores com proteção previdenciária.
Além disso, a expansão dos empregos informais e intermitentes reforça a dependência de programas sociais — criando um círculo vicioso entre baixa renda e vulnerabilidade.
Conclusão: um recorde de números, não de prosperidade
O recorde de 103,2 milhões de ocupados, embora estatisticamente positivo, não representa um pleno emprego real. Por trás da taxa de 5,2% de desemprego, há uma realidade em que quase 1 em cada 6 brasileiros da força de trabalho não tem emprego pleno.
O dado mais importante, portanto, não é o número de pessoas ocupadas, mas a qualidade e a estabilidade dessas ocupações.
Enquanto o país não reduzir a informalidade e garantir proteção social real ao trabalhador, o recorde de emprego continuará sendo um retrato otimista de uma economia ainda frágil e desigual.