BRASÍLIA – Após uma semana de sucessivas derrotas no Congresso Nacional, o Palácio do Planalto deu início a uma operação de "redução de danos" e reposicionamento de agenda. Para tentar retomar o protagonismo e desviar o foco do desgaste com o Legislativo, o governo Lula decidiu impulsionar bandeiras de forte apelo popular, como a discussão sobre o fim da escala 6x1 e a nova fase do programa Desenrola, enquanto nos bastidores ferve a estratégia de reação contra o senador Davi Alcolumbre (União-AP).
A avaliação interna é que o governo precisa de vitórias simbólicas para estancar a percepção de paralisia política e fragilidade diante de um Congresso cada vez mais empoderado e independente.
A "Agenda Positiva" como Escudo
Diante do revés em temas como a dosimetria penal e a desoneração da folha, a ordem na Secretaria de Comunicação (Secom) é inundar as redes com pautas sociais.
- Escala 6x1: O governo passou a sinalizar apoio à discussão sobre a redução da jornada de trabalho. Embora a equipe econômica veja riscos fiscais e de produtividade, a ala política entende que o tema é um "voto de confiança" junto à classe trabalhadora e ajuda a pautar o debate público fora da bolha de Brasília.
- Desenrola Brasil: O programa de renegociação de dívidas será turbinado. O foco é mostrar que, enquanto o Congresso discute questões técnicas e institucionais, o Executivo está focado no "bolso do brasileiro" e na recuperação do crédito das famílias.
O "Fator Alcolumbre" e a Crise de Confiança
O Planalto atribui a Alcolumbre a responsabilidade direta pela reprovação de Messias ao STF e por não atuar como mediador nas derrotas recentes. Lula e seus conselheiros mais próximos avaliam agora uma retaliação pragmática. Entre as medidas em estudo estão:
- Represamento de cargos: Congelamento de indicações de aliados do senador em órgãos federais.
- Distribuição de Verbas: Priorização de repasses para outros estados em detrimento de redutos ligados à cúpula do União Brasil no Amapá.
"A política é uma via de mão dupla. O governo não pode ser o único a entregar sem receber a governabilidade mínima em troca", pontuou uma fonte do alto escalão do Planalto sob condição de anonimato.
O Destino de Jorge Messias
No centro deste furacão político está o Advogado-Geral da União, Jorge Messias, após sua derrota para o STF. Sua situação deve ser definida ainda nesta semana. Messias, um dos nomes de maior confiança de Lula, tem sido alvo de pressões cruzadas.
Há duas frentes de especulação: a sua permanência no cargo com poderes ampliados para blindar juridicamente o governo, ou sua indicação para uma vaga estratégica no Judiciário, o que abriria espaço para uma reforma ministerial técnica. A decisão sobre Messias é vista como o primeiro passo da reforma administrativa e política que Lula pretende implementar para enfrentar o final de seu mandato com mais fôlego.
Cenário de Incerteza
A estratégia de "mudar o assunto" para o fim da escala 6x1 é considerada arriscada por analistas, pois pode criar atritos com o setor produtivo. No entanto, para um governo que se viu acuado por vetos derrubados e pautas-bomba, o populismo responsável parece ser a única saída imediata.
Enquanto isso, Brasília observa atentamente os movimentos de Alcolumbre. Se o governo decidir pela retaliação aberta, o clima no Senado pode se tornar abertamente hostil, dificultando ainda mais a aprovação de matérias econômicas cruciais para o fechamento do ano fiscal. A semana promete ser de "facas amoladas" na Praça dos Três Poderes.