CIUDAD DEL ESTE/ASSUNÇÃO – Durante décadas, a fronteira entre Brasil e Paraguai foi vista majoritariamente sob a ótica do comércio de oportunidade e do turismo de compras. No entanto, um novo fenômeno migratório ganha força: o perfil do brasileiro que "desistiu" do Brasil para buscar estabilidade, segurança e menor carga tributária em terras paraguaias. Dados consulares e de órgãos de imigração revelam que o Paraguai deixou de ser apenas um destino comercial para se tornar uma opção de residência fixa para profissionais liberais, empreendedores e aposentados.
Diferente dos "brasiguaios" das décadas de 70 e 80, que buscavam terras para o agronegócio, os novos imigrantes são atraídos por um custo de vida reduzido e uma economia que apresenta índices de crescimento consistentes.
O Perfil do Novo Imigrante
A migração atual é heterogênea, mas concentra-se em três grupos principais que buscam escapar das dificuldades estruturais brasileiras:
- Empreendedores e Investidores: Atraídos pela Lei de Maquila e por um sistema tributário simplificado (conhecido como "10-10-10": 10% de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de imposto de renda pessoal).
- Estudantes e Profissionais de Saúde: Milhares de brasileiros cruzam a fronteira para cursar Medicina, devido às mensalidades que chegam a ser 80% mais baratas que no Brasil, com um processo de ingresso menos burocrático.
- Trabalhadores Remotos (Nômades Digitais): Com o ganho em real ou dólar, o poder de compra no Paraguai aumenta drasticamente, permitindo acesso a moradia de alto padrão e serviços por uma fração do preço cobrado em capitais como São Paulo ou Rio de Janeiro.
Fatores de Atração: Menos Estado, Mais Poder de Compra
O que motiva a saída definitiva do Brasil, segundo relatos de imigrantes, é a sensação de "asfixia financeira". No Paraguai, a baixa carga tributária reflete-se diretamente no preço dos combustíveis, da energia elétrica (uma das mais baratas do mundo devido à Itaipu) e de bens de consumo.
"No Brasil, eu trabalhava seis meses apenas para pagar impostos e não sentia o retorno em segurança. Aqui, meu custo fixo caiu pela metade e consigo investir no meu negócio", afirma um empresário paranaense estabelecido em Hernandarias.
Desafios e Realidade
Apesar das vantagens econômicas, a vida no Paraguai impõe desafios. O sistema de saúde pública é limitado, o que obriga a contratação de seguros privados, e a infraestrutura urbana em cidades fora do eixo Assunção-Ciudad del Este ainda é precária. Além disso, o preconceito histórico e a barreira do idioma (espanhol e guarani) exigem um esforço de adaptação cultural.
Comparativo de Custo de Vida (Estimativa)
| Item | Brasil (Grandes Centros) | Paraguai (Cidades Médias) |
| Imposto de Renda (Max) | 27,5% | 10% |
| Energia Elétrica | Alta (bandeiras tarifárias) | Baixa (excedente de Itaipu) |
| Cesta Básica | Impactada pela inflação | 20% a 30% mais barata |
Impacto na Fronteira
A migração está transformando cidades como Salto del Guairá e Pedro Juan Caballero em polos de serviços voltados para brasileiros. Condomínios fechados e escolas bilíngues proliferam para atender esse público que, embora viva em solo estrangeiro, mantém laços culturais e econômicos com o Brasil.
O governo paraguaio tem facilitado os trâmites de residência permanente para brasileiros, entendendo que esse fluxo migratório traz capital intelectual e financeiro. Para quem sai, o Paraguai representa a chance de um recomeço com menos burocracia; para o Brasil, o fenômeno serve de alerta sobre a fuga de cérebros e capital para vizinhos mais competitivos.