BRASÍLIA – Uma nova e grave camada foi adicionada à investigação da Polícia Federal (PF) sobre o voo privado que transportou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). O foco da apuração agora recai sobre um episódio de quebra de protocolo de segurança aeroportuária: segundo os investigadores, o piloto da aeronave teria transportado cinco bagagens diretamente para o avião, contornando a fiscalização obrigatória por máquinas de raio-X.
O caso chegou à mesa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre o ocorrido. A manifestação da PGR será decisiva para definir se os parlamentares serão formalmente investigados ou se novas diligências, como buscas e apreensões, serão autorizadas.
O "Furo" no Protocolo de Segurança
A investigação detalha que, antes da decolagem, o piloto da aeronave teria retirado cinco malas de um veículo e as levado diretamente para o compartimento de carga, sem passar pelos procedimentos padrão de inspeção previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). O uso de áreas de embarque executivo, embora mais flexível que o embarque comercial, não isenta passageiros ou tripulantes da fiscalização de segurança e de itens proibidos.
A PF busca entender o que havia nas malas e por que houve um esforço deliberado para evitar o escrutínio do raio-X. O episódio levanta suspeitas sobre o transporte de valores ou bens que não poderiam ser devidamente rastreados ou declarados.
O Papel de Alexandre de Moraes e a PGR
O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF, agiu após receber relatórios parciais da PF que indicam indícios de irregularidades no voo. Ao pedir a manifestação da PGR, o ministro segue o rito processual que exige que o órgão acusador avalie se há elementos suficientes para a abertura de um inquérito formal por crimes como corrupção passiva ou lavagem de dinheiro.
Se a PGR entender que a conduta do piloto foi orientada pelos parlamentares ou que o conteúdo das bagagens está vinculado a vantagens indevidas, o caso pode evoluir para uma denúncia criminal.
Defesa e Argumentação
As assessorias de Ciro Nogueira e Hugo Motta negam qualquer conhecimento sobre irregularidades no manuseio das bagagens. A defesa sustenta que os parlamentares não são responsáveis pelos procedimentos operacionais de solo ou pela conduta dos pilotos contratados pelas empresas de táxi aéreo.
"O passageiro não tem controle sobre a logística de solo realizada pela tripulação. Atribuir aos parlamentares qualquer falha na inspeção de malas é uma tentativa de criminalizar a atividade política sem provas", declarou um interlocutor jurídico próximo aos congressistas.
A Polícia Federal, entretanto, está analisando imagens de câmeras de segurança do aeroporto de origem para identificar quem entregou as malas ao piloto e se houve algum diálogo que indique ciência dos parlamentares sobre a manobra para evitar o raio-X. O conteúdo das bagagens, que já foi desembarcado e não foi retido no momento do voo, permanece o maior mistério e o principal alvo da apuração técnica da corporação.